O Ano Litúrgico
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O Ano litúrgico apresenta-se com uma estrutura fundamental de todo o edifício cultual cristão. Não se trata de uma acção pontual ou de um conjunto de celebrações pontuais: todas as celebrações litúrgicas são, de algum modo, “marcadas” pelo tempo litúrgico em que se realizam, pelo momento do Ano litúrgico em que acontecem. Isto é particularmente evidente na celebração eucarística e na Liturgia das Horas.

Só é possível conseguir uma compreensão profunda do Ano litúrgico, dos seus ciclos e festas e da sua dinâmica profunda fazendo a sua história, percebendo como atingiu essa configuração actual. No primeiro período da história da Igreja, a Páscoa foi o centro vital e único da celebração cristã, pois o culto cristão nasceu da Páscoa e para celebrar a Páscoa. A liturgia cristã nasceu com a ressurreição de Cristo, sua fonte inesgotável[1], e é sempre celebração do Mistério Pascal, isto é, presença actuante de Cristo ressuscitado. Assim, no princípio da Liturgia cristã encontramos o Domingo como única festa: a Páscoa semanal. Quase simultaneamente surgiu, em cada ano, a celebração anual da Páscoa, como um “grande Domingo”, que se ampliará, constituindo o Tríduo Pascal, com prolongamento nos cinquenta dias seguintes (tempo da Páscoa), que terminavam com a celebração do Pentecostes. Já no início do século III, respondendo à necessidade de um tempo de preparação mais intenso para o Baptismo e de penitência, em ordem à reconciliação dos penitentes, começa a estruturar-se o tempo da Quaresma. O ciclo do Natal nasceu a partir do século IV. Para criar certo paralelismo com o ciclo pascal, muito depressa se começou a fazer preceder as festividades natalícias (Natal, Epifania, Baptismo do Senhor) de um tempo preparatório: o Advento. É tendo presente esta evolução, agora apenas esboçada nos seus momentos fundamentais, que se compreende que o mistério pascal é a chave de leitura do Ano litúrgico, pois “todo o culto cristão não é senão uma celebração contínua da Páscoa”[2]. “O Ano litúrgico é o resultado de uma longa experiência de Igreja, de uma vivência comunitária constante e profunda do mistério pascal e de uma necessidade irresistível de exprimir tal vivência em formas cultuais”[3]. Os limites de tempo com que teremos de lidar, nestas introduções, impedem-nos de dedicar à evolução histórica a desejável atenção. Assim, a nossa atenção centrar-se-á preferentemente na configuração actual de cada um dos ciclos do Ano Litúrgico, fazendo apelo à história apenas quando isso for determinante para a compreensão dessa configuração actual.

 

Os ritmos da vida e da Liturgia

Uma das características do tempo da celebração é a sua determinação no calendário. Os calendários não nasceram porém como fruto da arbitrariedade de um qualquer iluminado. Na sua determinação, foram decisivos os ritmos cósmicos, astronómicos, bem como os ritmos celebrativos judaicos.

 

Por um lado, os ritmos cósmicos ou astronómicos influenciaram bem mais a fixação do calendário do que por vezes suspeitamos. Por outro lado, estes ritmos cósmicos foram assimilados pelo calendário judaico, que influenciou claramente o calendário cristão e os nossos ritmos celebrativos. A Liturgia cristã, adoptando e adaptando esses mesmos ritmos, criou uma autêntica “pedagogia dos símbolos”, que ajuda o homem a passar do visível ao invisível. Vejamos os principais ritmos cósmicos assumidos pela Liturgia cristã:

 

a) Ano. O ano é um ritmo astronómico significativo em todas as culturas. O calendário hebraico era lunar e o ano hebraico tinha o seu início no mês de Nisan (correspondente a Março-Abril do calendário solar). O ano é a unidade temporal na qual o judaísmo faz memória das intervenções salvíficas de Deus. O cristianismo recebeu do judaísmo esta herança. “No ciclo do ano, a Igreja comemora todo o mistério de Cristo”, afirmam as Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário (NGALC 17; cf. SC 102). O Ano Litúrgico, que coincide (quanto à duração) com o ano civil e solar, tem um significado próprio como unidade significativa do mistério de Cristo no tempo. Durante o ano, articulam-se as diversas festas móveis, cuja data depende da oscilação da data da Páscoa, e as festas fixas, cuja data está fixada no calendário litúrgico.

 

b) Mês. O mês corresponde a um curso completo das fases lunares (trata-se, pois, de um ritmo do calendário lunar, depois adaptado ao calendário solar). Na Bíblia, o ritmo mensal não era fundamental, mas tinha importância sobretudo a nível da religiosidade popular (celebrações das neoménias = luas novas). A Liturgia cristã nunca assumiu este ritmo, mas ele tem grande relevo na religiosidade popular.

 

c) Semana. A semana é um período de sete dias que equivale aproximadamente à quarta parte do mês lunar. Na Bíblia, a semana tem uma enorme importância e marca o ritmo celebrativo do calendário judaico. Basta referir que o relato da criação, em Gn 1, está estruturado com base na semana e o ritmo hebdomadário é considerado de instituição divina. Para além da santificação do sétimo dia (Sábado), o judaísmo conhecia algumas festividades que duravam uma semana inteira (por exemplo, a festa dos tabernáculos). No cristianismo, a semana adquire novo significado: o primeiro dia da semana é o dia memorial da ressurreição. Deste ritmo hebdomadário é que nasceu e se desenvolveu todo o ano litúrgico. “No primeiro dia da semana, chamado «dia do Senhor» ou «domingo», a Igreja, por tradição apostólica que vem do próprio dia da ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal” (NGALC 4).  Os dias da semana são chamados “férias” (do Latim feriae), com excepção do Domingo e do Sábado (os nomes dos dias da semana em Português reflectem esta denominação).

 

d) Dia. Outro grande ritmo temporal da Liturgia é o dia: “cada dia é santificado com as celebrações litúrgicas do povo de Deus, de modo particular com o Sacrifício Eucarístico e o Ofício Divino” (NGALC 3). O dia mede-se da meia-noite à meia-noite seguinte, excepto os domingos e solenidades em que a celebração começa na tarde do dia precedente, seguindo a tradição judaica.

 

e) Hora.  A hora, na Bíblia, é a mais pequena repartição temporal com importância teológica. Na linguagem litúrgica cristã, a palavra “hora” reserva-se para as horas diurnas; as horas nocturnas são denominadas “vigílias” ou “nocturnos”. O centro do dia é ocupado pela celebração eucarística, embora não se fixe nenhuma hora concreta para a sua celebração.

 


[1]             Cf. J. CORBON, A fonte da liturgia, Paulinas, Lisboa  1999, 19-84 (especialmente 31-40).

[2]             L. BOUYER, Le Mystère Pascal, (Lex Orandi 4), Cerf, Paris  1950,  9.

[3]             J.M. BERNAL, Para viver o Ano Litúrgico. Uma perspectiva genética dos ciclos e das festas, Gráfica de Coimbra, Coimbra [2001], 10.

 

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